Pernambuco
19.01.2026
Antes de chegar aos festivais internacionais e às telonas do mundo, o caminho de alguns jovens pernambucanos que brilharam no filme O Agente Secreto começou na sala de aula. Foi na rede estadual que esses atores tiveram os primeiros contatos com a arte e com o audiovisual. Egressos da educação pública, eles integram o elenco do premiado filme produzido no Recife, dirigido por Kleber Mendonça Filho e vencedor do Globo de Ouro, e carregam trajetórias que nasceram com o apoio de professores e projetos pedagógicos que transformaram curiosidade em vocação e sonho em possibilidade real.
O maior destaque da produção é o jovem Robson Andrade, que interpreta Clóvis. No filme, ele é o fiel ajudante de Dona Sebastiana, vivida por Tânia Maria, e presença constante na pensão onde o protagonista Marcelo, personagem de Wagner Moura, se esconde durante a ditadura militar, em 1977. Discreto, singelo e profundamente humano, Clóvis representa a rede silenciosa de apoio e resistência daquele período, funcionando como contraponto à atmosfera de medo e desconfiança que atravessa a narrativa.
O interesse pela arte não surgiu por acaso. Robson já se sentia atraído pelo cinema desde os 15 anos, mas foi na Escola de Referência em Ensino Médio (Erem) Protázio Soares de Souza, de Toritama, no Agreste pernambucano, que o sonho encontrou espaço para crescer. Ele teve contato direto com o teatro ao participar de uma disciplina eletiva que marcou sua trajetória.
“Recebi muito incentivo para seguir nessa área ainda na escola. A gente fazia peças para os trabalhos e, muitas vezes, precisava escrever os próprios roteiros. Foi ali que comecei a me interessar de verdade por atuar”, relata Robson. “Esse interesse se intensificou quando participei da eletiva de teatro. Aprendi muito com as professora Valdeilma Félix e Maria Rita. Elas acreditaram em mim”, lembra.
“Quando eu estava perto de completar 17 anos, ainda na escola, uma moça me procurou dizendo que tinha encontrado meu perfil para um teste de elenco de um filme dirigido por Kleber Mendonça Filho. Ela pediu um vídeo de apresentação. Depois de alguns meses, entraram em contato novamente dizendo que eu tinha sido selecionado. Kleber me explicou a história do filme, falou do meu personagem e perguntou se eu queria participar. Depois disso, voltei outras vezes para ensaios, prova de figurino e, então, começaram as gravações”, conta.
Para a gestora da escola, Morelli Soares, a trajetória do ex-aluno é motivo de orgulho coletivo. “A escola se sente orgulhosa de fazer parte desse percurso, porque o primeiro contato dele com o teatro aconteceu aqui. A educação mostra o quanto é importante para o futuro, para as decisões e para as escolhas que fazemos na vida”, destaca.
O reconhecimento ganhou um capítulo especial quando a própria escola organizou uma ida ao cinema. A sessão aconteceu em um shopping de Caruaru, cidade vizinha. “A gente organizou um ônibus com 37 estudantes e fomos todos assistir ao filme. Quando a cena de Robson apareceu, com falas, com presença marcante, foi emocionante. Batemos palmas, gritamos. Depois da sessão. Ele estava com os olhos cheios de lágrimas”, lembra.
Outro destaque surgiu na EJA
Outro egresso da rede estadual que integra o elenco de O Agente Secreto é Diego Lopes, ex-estudante da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na Escola de Referência em Ensino Fundamental General Abreu e Lima, no município de Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife. A história dele reforça o papel da EJA como política pública capaz de resgatar trajetórias e criar novas possibilidades.
Foi na escola que Diego teve o primeiro contato com o audiovisual, ao participar de uma oficina de cinema em 2022. À época, ele ainda era estudante da EJA e conciliava os ensaios e atividades do filme com a rotina escolar. A partir dessa experiência, passou a escrever roteiros e gravar seus próprios filmes.
“A escola foi fundamental para mim. Sou muito grato aos professores que me acolheram e acreditaram no meu potencial. Tudo começou na sala de aula”, relata.
No filme, Diego participa de uma das cenas mais marcantes, gravada no Parque Treze de Maio, no Recife, envolvendo um ataque da Perna Cabeluda, figura do folclore recifense. A sequência recebeu elogios da crítica internacional e contribuiu para o impacto da obra.
Professor também integra elenco
Professor de Língua Portuguesa Paulo Bispo também integra o elenco do filme O Agente Secreto. Há dez anos atuando na educação pública, ele leciona na Erem Professor Fernando Mota, no Recife. Integrante de grupos de teatro, Paulo foi convidado a participar da produção, levando para a tela a experiência de quem vive, na prática, o papel formador da escola e do pensamento crítico.
No filme, ele interpreta um professor universitário que dialoga com o personagem vivido por Wagner Moura, em uma cena ambientada na Universidade Federal de Pernambuco. O momento retrata a tentativa de censura ao cinema por agentes da Polícia Federal durante a ditadura, destacando a universidade e os educadores como espaços e vozes de resistência intelectual e defesa da liberdade de expressão.
Ginásio Pernambucano no centro da narrativa
Além de revelar talentos, a rede estadual também integra o filme como cenário simbólico. A Erem Ginásio Pernambucano, localizada na Rua da Aurora, no centro do Recife, aparece como local de trabalho do protagonista Armando, interpretado por Wagner Moura.
Com 200 anos de história, a instituição mais antiga do Brasil em funcionamento teve diversas cenas gravadas em suas dependências. Uma delas se tornou imagem icônica do cartaz oficial do filme, com o personagem usando um orelhão no pátio externo da escola.
A escolha do espaço reforça a relevância histórica, arquitetônica e simbólica do Ginásio Pernambucano, que há dois séculos contribui para a formação de gerações. Para preservar esse patrimônio, o Governo de Pernambuco autorizou a requalificação da unidade, com investimento inicial de R$ 3,5 milhões, podendo chegar a R$ 7 milhões, voltado à climatização, acessibilidade e conservação do prédio histórico.